ARTIGOS

Padre Sylvain-Marie Giraud, MS: 1830-1885 - Centenário de Falecimento

Padre Atico Fassini, MS

Nascido em ÉGUILLES, na FRANÇA, aos 30 de setembro de 1830, SYLVAIN-MARIE GIRAUD foi ordenado sacerdote do clero diocesano de AIX-EN-PROVENCE em 1853. É nomeado Professor e Diretor Espiritual do Seminário Menor dessa mesma Diocese, tornando-se ao mesmo tempo, um pregador de renome.

Em 1857 sobe à Montanha de LA SALETTE, para um retiro. Desejava ali encontrar luzes para seu futuro. Há tempo interrogava-se a respeito de eventual entrada na Vida Religiosa. Hesita entre Capuchinhos, Maristas e Jesuítas. Sente forte apelo a imitar o Cristo Vítima. A Vida Religiosa lhe parecia o caminho adequado. Um texto por ele escrito no dia mesmo de sua Ordenação Sacerdotal, é significativo: “Eis-me sacerdote, ó meu Deus, ó Trindade Santa! Renovo diante de Vós, o único desejo que existe no fundo de minha alma, o de ser como vossos Santos, tanto vítima quanto sacerdote…”.

Ao encontrar-se com a Virgem em lágrimas, em LA SALETTE, Padre GIRAUD também encontra a resposta a seus anseios. Escreve: “A Santíssima Virgem, minha boa Mãe, quer que me torne missionário de suas lágrimas e sofrimentos. Jamais experimentei convicção tão íntima, tão benéfica. Terminaram assim, todas as incertezas”. O projeto de vida de identificar-se a Jesus Vítima, significava para ele, imitar Maria, a Virgem das Dores, presente ao pé da Cruz.

Só depois de um ano, e com muitas dificuldades, seu Bispo lhe dá a permissão de deixar a Diocese e integrar o grupo de Sacerdotes, os Missionários de Nossa Senhora da Salette, fundado pelo Bispo de Grenoble, Dom Philibert de Bruillard, pouco antes, em 1852. Servidores do local de peregrinação, na Montanha de LA SALETTE, onde a Virgem Maria aparecera a 19 de setembro de 1846, e missionários diocesanos em Grenoble, esses sacerdotes aos poucos passaram a constituir-se em Comunidade Religiosa com o mesmo nome.

Padre GIRAUD une-se a eles, a 26 de novembro de 1858, e se torna o primeiro a solicitar a admissão ao noviciado regular. Ao Padre Mestre escreve: “Vede-me como argila, e modelai-me como quiserdes!”. A 2 de fevereiro de 1860, “com incomparável alegria”, segundo afirma, faz a sua Profissão Religiosa.

A seguir, entre 1865 e 1876, como Superior da pequena Comunidade dos Missionários de Nossa Senhora da Salette, e Reitor da Peregrinação no local da Aparição, Padre SYLVAIN-MARIE desenvolve intensa atividade missionária, de escritor e místico.

Com todos partilha a graça da Aparição de Maria em LA SALETTE. Escreve ele: “Tudo deve ser comunicado a seu povo, mas sobretudo a narrativa de seus sofrimentos, de suas lágrimas, de seu estado de aniquilamento e de imolação diante da Majestade de Deus e diante do Coração ultrajado de seu divino Filho: numa palavra, seu estado de vítima” (in “DE L’UNION A N. S. JESUS-CHRIST DANS SA VIE DE VICTIME”. p. 437).

O desejo de Padre GIRAUD era ver surgir das irradiações da Virgem em lágrimas de LA SALETTE, um Instituto de Religiosas-Vítimas e outro de Sacerdotes-Vítimas, ambos de vida contemplativa. Esse desejo não foi realizado por força das circunstâncias, com grande sofrimento para Padre GIRAUD, sofrimento aceito porém, como “das mãos de Deus”, segundo afirma. Viu firmar-se então, a Congregação dos Missionários de Nossa Senhora da Salette como Instituto de vida ativa, a quem imprimiu uma espiritualidade definida.

De 1876 até sua morte, a 22 de agosto de 1885, Padre GIRAUD foi Superior da Comunidade em VIENNE, França. Ali compôs sua obra mais importante, sob o título de “PRÊTRE ET HOSTIE”. E dali orientava também a Comunidade de Irmãs de Nossa Senhora da Salette, por ele fundada, situada em FRANCHEVILLE.

Inúmeros e renomados foram os retiros que pregou a Sacerdotes e Religiosos, sobretudo nas Dioceses de GRENOBLE, BESANÇON e AIX- EN-PROVENCE. Ao retornar de um deles, foi obrigado a deter-se em TARASCON, por problemas de saúde, e internar-se no “Asilo de Caridade” onde morreu, “na casa dos pobres” como desejava. Mais tarde, seus restos mortais foram transladados à Montanha de LA SALETTE. Os que o conheciam chamavam-no de “Nosso Santo Padre GIRAUD!”. Sua Congregação vê-lo-á venerado entre os Santos um dia? A sabedoria da Igreja e aos desígnios de Deus cabe decidir.

OBRAS: Padre GIRAUD inaugura sua série de escritos com duas obras de caráter marial: “PRACTIQUE DE LA DEVOTION A NOTRE-DAME RECONCILIATRICE DE LA SALETTE” (1863) e “DE LA VIE D’UNION AVEC MARIE, MÈRE DE DIEU” (1864). Três obras fundamentais constituem o cerne de seu pensamento: “DE L’UNION A N. S. JÉSUS-CHRIST DANS SA VIE DE VICTIME” (1870), “DE L’ESPRIT ET DE LA VIE DE SACRIFICE DANS L’ÉTAT RELIGIEUX” (1873), e “PRÊTRE ET HOSTIE” (dois volumes publicados em 1885).

No Prefácio de “PRÊTRE ET HOSTIE” delineia a relação entre Sacerdócio, Batismo e Sacrifício, ao escrever: “Todo cristão é sacerdote, não para oferecer, por ofício, o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo; mas é sacerdote porque é feito participante, por direito de seu Batismo, dessa divina oblação, concorrendo para isso, de diferentes modos; e é sacerdote a fim de oferecer a si mesmo como vítima em união com o sacrifício de Jesus Cristo, diante da Majestade do Pai […]. Da mesma forma, por uma consequência assim rigorosa, todo religioso, obrigado em virtude da profissão dos santos votos, a buscar a perfeição da graça do cristianismo, é obrigado a buscar a perfeição da vida de vitima” (p. 16 e 17). Da mesma forma, como explica em outras passagens dessa mesma obra, a grandeza da graça do Sacramento da Ordem exige, no Sacerdote, uma correspondente grandeza de vida de hóstia, na imitação a Jesus Cristo, Sacerdote único do Pai, que fez da perfeição de sua Humanidade, a Hóstia de seu Sacrificio.

Outras obras de Padre GIRAUD ilustram essa doutrina, tanto na chave da contemplação quanto na da vida prática.

Em seus escritos Padre GIRAUD revela-se profundo conhecedor da Escritura e dos Santos Padres, a ponto de o Cardeal MANNING dirigir-lhe as seguintes palavras: “O cabedal de citações e autoridades ultrapassa imensamente toda e qualquer obra de meu conhecimento”.

Como afirma o “DICTIONAIRE DE SPIRITUALITÉ”, verbete “GIRAUD, SYLVAIN-MARIE”, Tomo VI, PARIS, BEAUCHESNE, 1967, coluna 405: “Disso resulta que, na época do Primeiro Concílio Vaticano, seus leitores tinham razão em crer que a doutrina do Corpo Místico de Jesus Cristo não era vaga metáfora, mas uma realidade percebida pela Igreja ao longo de sua história e que lhe permite de se definir, e com ela cada um de seus membros, não por um estatuto jurídico, mas por seu ser de graça”. Não se faz necessário sublinhar o mérito de tal concepção, nessa época. “Num escrito apenas esboçado, ‘LE PRETRE DANS SES RELATIONS AVEC L’ÉGLISE ET AVEC LES AMES’, dois capítulos, de aguda intuição, abririam a obra: ‘O mistério da Igreja como Esposa de Cristo’ e ‘O Espírito Santo, dote da Igreja’”.

Acrescenta ainda o mesmo “DICTIONNAIRE DE SPIRITUALITÉ”: “A unidade entre obra e vida de SYLVAIN GIRAUD impressionou fortemente a seus contemporâneos. […] Segundo HENRI BREMOND, SYLVAIN GIRAUD foi ‘um dos maiores espirituais dos tempos modernos’. Historicamente foi o guia seguro e muito seguido por almas ferventes, religiosas sobretudo, que aspiravam a vida de vítima, durante a segunda metade do século XIX” (DICTIONAIRE…, col. 406).

 

Referência

REVISTA CONVERGÊNCIA, julho/agosto de 1985, p. 338-340.