Segunda-Feira, 21 de Agosto de 2017

A Virgem Maria no Tempo da Páscoa

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Quisera oferecer uma meditação sobre o sentido da presença discreta e até escondida da Mãe do Ressuscitado, no mistério desses cinqüenta  dias de alegria pascal  que chamamos de Tempo de Pentecostes.

É tempo do Cristo Ressuscitado, presente no meio de seus discípulos desde a manhã da   Páscoa. É tempo do Espírito Santo cuja efusão, São João Evangelista antecipa na  tarde do Domingo da Ressurreição, para sublinhar que o dom do Espírito Santo é  sopro do próprio Ressuscitado, transmitido a seus apóstolos (cf. Jo 20,22-23), para  que prossigam a mesma obra que Jesus  levou até o fim. É tempo da Igreja, da humanidade nova   que é o corpo do Ressuscitado que através das aparições de Jesus a seus discípulos, alegra-se com a certeza de sua presença até o fim dos tempos em sua peregrinação histórica (Mt 28,20). É tempo de Maria, a Mãe de Cristo Ressuscitado que sente a alegria pelo triunfo de seu Filho, discípula entre os discípulos, aquela que foi testemunha da Ressurreição, da Ascensão e de  Pentecostes.

Vamos elucidar de uma maneira simples, a presença de Maria nestas três ocasiões, à luz da Liturgia, com elementos tradicionais e novos, do Oriente e do Ocidente, baseando-se também na iconografia e na tradição bíblico-litúrgica. Queremos assim, suprir discretamente, o silêncio dos dados encontrados nos evangelhos sobre Maria.

Trata-se da presença e do exemplo de Maria no  centro dos mistérios que selam a missão salvadora  de seu Filho, da Ressurreição até  o Pentecostes.

1. Maria na alegria da  Ressurreição

Não vamos embarcar na difícil tarefa de justificar uma aparição de Jesus Ressuscitado  à Virgem Maria. Existe literatura abundante, nos apócrifos, nos escritos dos Padres que se deixaram convencer pelos apócrifos, e até mesmo nos Evangelhos que se esforçam para ver em uma das Marias que receberam a aparição de Jesus, à Virgem Mãe de Deus. Nem é este o lugar para que  sejamos  seduzidos pelos clássicos livros da Vida de Maria que falam da primeira aparição do Senhor a sua Mãe, ou pela abundante literatura espiritual sobre este tema. Vamos simplesmente perscrutar os textos litúrgicos, que são escritos de fé, que no âmbito da celebração dos mistérios, adquirem o valor do verdadeiro “sensus fidelium”.

Que Maria seja testemunha da Ressurreição de seu Filho, ninguém duvida. Sua presença no cenáculo, a espera do Espírito Santo, é um dado essencial. A experiência de Maria como Mãe e discípula não  terminou ao pé da Cruz. Maria é associada  plenamente à continuidade do mistério de Cristo na dimensão do Espírito, que se inaugura na manhã da Páscoa e tem como momento estrelar a efusão do Espírito Santo, em Pentecostes. A experiência de Maria se enriquece, cresce e adquire, como no Calvário, toda a dimensão tipológica  de “experiência eclesial” , quando a Mãe de Jesus aparece como figura e Mãe da Igreja nascente.

2. O Oriente Bizantino

A Liturgia bizantina que com tanta emoção canta a presença de Maria ao pé da Cruz e põe em seus lábios os mais comovedores lamentos pela morte de seu Filho, é bastante discreta quando se refere à   alegria Pascal que sente a Mãe de Jesus. O “megalinário” ou Canto à Maria que se intercala nas orações Eucarísticas depois da epíclese, no momento em que se recorda a Virgem na comunhão dos Santos, tem a finalidade, de acentuar esta alegria:

«O Anjo exclamou a Cheia de Graça:
’Virgem Pura rejubila!’
De novo digo, rejubila,
teu Filho ressuscitou do túmulo ao terceiro dia.
Resplandece, resplandece, ó Nova Jerusalém,
pois a glória do Senhor, brilhou sobre ti.
Exulta agora, e alegra-te Sião.
E tu, ó Mãe de Deus toda pura,
Rejubila na Ressurreição do teu Filho.»

A última parte deste hino é de autoria de  São João Damasceno, que é cantado na Grande Vigília Pascal Bizantina. A Mãe de Cristo é associada à alegria da Nova Jerusalém, da Igreja que nasce da Ressurreição. Mas o texto tem conteúdo simbólico sugestivo. As palavras do Anjo no primeiro anúncio “Alegra-te, cheia de Graça”, tem agora  a dimensão do grande anúncio da Páscoa. Os anjos são os primeiros evangelistas, como também as mulheres que receberam o anúncio e o comunicaram aos discípulos incrédulos. A liturgia bizantina  por isso, as honra com o título de “iguais-aos -apóstolos”  ou, “apóstola-dos-apóstolos”.

Entre estas mulheres, portadoras de perfumes (miróforas) e evangelistas, Maria está  incluída, e é testemunha da Ressurreição. A alegria deste segundo anúncio que a Virgem recebeu , parece, nos sugerir o texto bizantino, recordar todas as promessas do primeiro “alegra-te”  da Anunciação como também as palavras que Jesus repetiu muitas vezes a seus discípulos e que Maria, junto com tantas outras, conservava em seu coração: “Ao terceiro dia ressuscitarei”. Neste texto bizantino, podemos encontrar a fonte da antífona Mariana  que a Igreja do Ocidente repete durante todo o tempo pascal: “Rainha do Céu, alegrai-vos, aleluia”.

Entre os tropários da Ressurreição que a Liturgia Bizantina canta todos os domingos, o  do sexto tom, conservou também uma breve recordação do encontro de Jesus com sua Mãe:

«Enquanto Maria estava diante do sepulcro
a procura de teu imaculado corpo,
os anjos apareceram em teu túmulo
e as sentinelas desfaleceram.
Sem ser vencido pela morte,
submeteste ao teu domínio o reino dos mortos,
e vieste ao encontro da Virgem revelando a Vida.
Senhor, que ressurgiste dos mortos, glória a Ti!»

Uma antiqüíssima ilustração iconográfica faz eco a esta convicção dos cristãos, transmitida pela tradição oral. O Evangeliário de Rábbula de Edessa, dos finais do século VI, conservado hoje na Biblioteca Laurenziana de Florênça, apresenta a cena das mulheres indo ao sepulcro na manhã da Páscoa, ao lado  da cena de Maria junto ao pé da Cruz.

3. A Liturgia do Ocidente 

Em plena consonância  com as expressões bizantinas, uma oração visigótica para o Dia da Ressurreição é dedicada à Virgem Mãe de Deus, quando  vai buscar o corpo de Jesus no sepulcro, que alguns evangelistas atribuem à Maria de Magdala:

«Senhor Jesus Cristo, 
com que ardoroso  desejo e devoção 
buscava tua bem aventurada Mãe,  
por todos os rincões teu corpo, 
quando mereceu receber do Anjo o anúncio  
para que não mais chorasse, 
pois estavas já ressuscitado...»

Como feliz prolongação da tradicional Antífona Mariana: “Rainha do Céu, alegrai-vos...”, o Missal Romano  de Paulo VI elaborou  várias orações para as Missas Votivas à Mãe Deus, no Tempo Pascal, recorrendo à alegria da Virgem pela Ressurreição de seu Filho.

Atualmente,  compilou-se novas orações para as Missas dedicadas à Maria como a Missa  “À Virgem Maria na Ressurreição do Senhor” , cujo conteúdo sintetiza de maneira apropriada o que a devoção dos fiéis  havia sempre colocado em relevo: a presença de Maria no Mistério do Cristo Ressuscitado. Maria, a Virgem da Páscoa, tem na Liturgia Ocidental, orações litúrgicas que celebram e propõem  uma união indissolúvel da Mãe de Deus com o triunfo de seu Filho. Como canta o Prefácio desta Missa:

«Porque na Ressurreição de Jesus Cristo, teu Filho, encheste de alegria a Santíssima Virgem e premiaste maravilhosamente sua fé; ela havia concebido o Filho crendo, e , crendo esperou sua Ressurreição; forte na fé, contemplou o dia da Luz e da Vida, na que, dissipada a noite da morte, o mundo inteiro alegrou-se e a Igreja nascente, ao ver  novamente o seu Senhor imortal, se alegrou entusiasmada».

A alegria da Virgem na Páscoa,  é a alegria da Igreja que se exulta pelo triunfo de Cristo e encontra a cada ano, no Mistério Pascal, a fonte de seu regozijo, de sua esperança e de seu empenho.

 

 

 

 

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